terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sadismo Médico





É de certa forma parte da formação médica aprender a objetificar os pacientes, para que a prática se torne menos intoxicante ao médico, que tem que lidar com doenças e o sofrimento humano no seu dia a dia. A questão da educação médica se depara com o pouco entendimento dos estudantes sobre o que buscam no curso de medicina.
Seriam as glórias passadas associadas à profissão médica?
Há inúmeras gratificações psicológicas inerentes á profissão médica: A medicina é uma área fascinante, de capital importância para a sociedade e, como tal, uma carreira desejada e idealizada pelos jovens. O grau de idealização pode gerar altas expectativas que, não correspondidas, tendem a produzir decepções e frustrações significativas, com repercussões importantes na saúde mental dos estudantes. Além disso, há o caráter altamente ansiogênico do exercício profissional, no qual tratar do adoecer do outro é estar em contato íntimo com este.
Algumas características inerentes à tarefa médica definem, isoladamente ou em seu conjunto, um ambiente profissional cujo colorido básico é formado pelos intensos estímulos emocionais que acompanham o adoecer: O contato intimo e freqüente com a dor e o sofrimento; lidar com pacientes difíceis; queixosos, rebeldes e não aderentes ao tratamento, hostis, reivindicadores, auto-destrutivos, cronicamente deprimidos.
Daí a necessidade de objetificar o doente, para assim afastá-lo de nossos sentimentos no intuito de desempenhar a atividade necessária. No entanto existe uma grande diferença entre o afastamento dito “natural” e do sadismo.
E de onde vem o comportamento sádico na medicina?



O próprio exercício da profissão médica parece ser “um veneno psicológico” para seus profissionais. Uma alta incidência de suicídio, depressão, uso de drogas, distúrbios conjugais, problemas com a sexualidade e disfunções profissionais tem sido apontados na literatura. Muitas das características psicodinâmicas que podem conduzir as pessoas para a carreira médica também as predispõem a desordens emocionais. Algumas características incluem compulsividade, rigidez, controle sobre as emoções, retardo de gratificações e formação de fantasias irrealistas sobre o futuro.
Talvez as demandas por longas horas de estudo e notas suficientemente altas para entrar no curso de medicina sejam apenas satisfeitas por personalidades suficientemente obsessivas e o processo seletivo (vestibular e universidade) na verdade separe indivíduos com estes traços para o exercício da profissão. E como se sabe, obsessão tem a ver com controle. Os pacientes que apresentam-se fora do padrão estabelecido “normal”(paciente bonzinho que aceita tudo, não discute e só obedece), são os fatores que fogem ao controle do médico, que age com agressividade para exprimir sua frustração.
Um estudo recente, de Wear e Skillicorn, publicado no Journal of the association of American Medical Colleges observou um fator interessante na formação médica. Basicamente a pesquisa relata que estudantes que tiveram professores e modelos profissionais com características sádicas tendem a repetir esse comportamento na vida profissional e pessoal.
Concluindo, médicos que engajam constantemente em comportamentos rudes e sádicos não deveriam trabalhar em contato com novos profissionais, para prevenir uma “contaminação” da nova geração de médicos pelos antigos valores. Só com a reclamação por escrito dos diretamente afetados e com reprimendas aos médicos envolvidos pode-se tentar diminuir a epidemia de comportamentos sádicos nos hospitais do país e prevenir que a nova geração de médicos aprenda as más-práticas e o desrespeito ao próximo, tão comum nos Hospitais do SUS.

Um comentário:

  1. Conversando com uma amiga, hoje percebo que esses casos de sadismo as vezes ultrapassam a questão da profissão. De forma geral, todos os profissionais da área de saúde (e aqueles que lidam com o público) estão sujeitos a esse tipo de comportamento, as vezes pode ter ligação com a sindrome de burnout.

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