sábado, 26 de fevereiro de 2011

A grande crise de profissionalismo dos profissionais LTDA.



Série de TV Scrubs: mostra de forma bem interessante as relações de
poder no hospital

Todo mundo já passou por algum local de trabalho onde as relações interpessoais estavam abaladas de alguma maneira.

De forma geral, em um local de trabalho, existem diferentes formações de subjetividade, cultura institucional e história da formação da personalidade de cada trabalhador, gerente e big boss. Sentimentos de aversão ou de simpatia surgem no dia a dia de trabalho. Entretanto, tenho observado nas diversas instituições que trabalhei, pessoas infantilizadas nas suas relações com colegas de trabalho, com dificuldade de aceitar críticas, crises de liderança e tudo isso sempre remetido aquele conceito de que as pessoas no seu local de trabalho são uma família.


Olha só que aparente segurança
 apresenta esse cara, mas na verdade...

Nada mais desastroso para relações profissionais em uma instituição do que se intitular o grupo de trabalho como uma família. Freud, no artigo  recordar, repetir e elaborar de 1914 já escrevia sobre as repetições de situações da infância no mundo adulto. Existem pessoas que cresceram biologicamente, porém, emocionalmente encontram-se barradas lá na infância, compulsivamente repetindo situações de sua vida, entretanto, sem possibilidade de elaborar tal situação, daí a dificuldade de vivenciar situações potencializadoras de sua neurose de base.


...ele só quer a mamãe.

Essa neurose coletiva que somos obrigados a vivenciar nas instituições, potencializa o lado pacional versus o lado profissional. Pessoas deixam de trabalhar em conjunto, fervilham jogos de poder e política, que nada mais representam do que a repetição histórica da grande frustração coletiva da vida em sociedade civilizada: O modelo de família colonial do século XIX.  Que apesar da revolução sexual dos anos 60, ainda está presente no ideário do amazonense. As relações tem que parecer sérias, mas não são. É uma grande simulação que por trás das portas fechadas tudo pode acontecer. Uma verdadeira ilha da fantasia. (nossa isso é velho hein?)


As tecnologias se modificam diariamente, porém as relações humanas não. É necessário tempo para que isso ocorra. Assim, como ainda vivemos um atraso em tudo aqui no Amazonas e no Brasil, as relações interpessoais ainda remetem a estrutura colonial da casa grande e a senzala, daquilo que é para inglês ver, da grande comédia do faz de conta. Quando as pessoas de uma instituição deslocam estes sentimentos infantis, presentes em todos nós, de forma neurótica tende a ocorrer na fatalidade do desencontro. 

O local de trabalho começa a se tornar uma grande problemática, as pessoas criativas sentem-se perseguidas, outros tornam-se big brothers controladores tentando em vão por ordem ao caos estabelecido e não percebem que fazem parte da problemática que buscam em vão sanar.

O processo de modificação de paradigma é micropolítico.

As pessoas só podem dar o que elas tem, nada mais e nada menos que isso.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sadismo Médico





É de certa forma parte da formação médica aprender a objetificar os pacientes, para que a prática se torne menos intoxicante ao médico, que tem que lidar com doenças e o sofrimento humano no seu dia a dia. A questão da educação médica se depara com o pouco entendimento dos estudantes sobre o que buscam no curso de medicina.
Seriam as glórias passadas associadas à profissão médica?
Há inúmeras gratificações psicológicas inerentes á profissão médica: A medicina é uma área fascinante, de capital importância para a sociedade e, como tal, uma carreira desejada e idealizada pelos jovens. O grau de idealização pode gerar altas expectativas que, não correspondidas, tendem a produzir decepções e frustrações significativas, com repercussões importantes na saúde mental dos estudantes. Além disso, há o caráter altamente ansiogênico do exercício profissional, no qual tratar do adoecer do outro é estar em contato íntimo com este.
Algumas características inerentes à tarefa médica definem, isoladamente ou em seu conjunto, um ambiente profissional cujo colorido básico é formado pelos intensos estímulos emocionais que acompanham o adoecer: O contato intimo e freqüente com a dor e o sofrimento; lidar com pacientes difíceis; queixosos, rebeldes e não aderentes ao tratamento, hostis, reivindicadores, auto-destrutivos, cronicamente deprimidos.
Daí a necessidade de objetificar o doente, para assim afastá-lo de nossos sentimentos no intuito de desempenhar a atividade necessária. No entanto existe uma grande diferença entre o afastamento dito “natural” e do sadismo.
E de onde vem o comportamento sádico na medicina?



O próprio exercício da profissão médica parece ser “um veneno psicológico” para seus profissionais. Uma alta incidência de suicídio, depressão, uso de drogas, distúrbios conjugais, problemas com a sexualidade e disfunções profissionais tem sido apontados na literatura. Muitas das características psicodinâmicas que podem conduzir as pessoas para a carreira médica também as predispõem a desordens emocionais. Algumas características incluem compulsividade, rigidez, controle sobre as emoções, retardo de gratificações e formação de fantasias irrealistas sobre o futuro.
Talvez as demandas por longas horas de estudo e notas suficientemente altas para entrar no curso de medicina sejam apenas satisfeitas por personalidades suficientemente obsessivas e o processo seletivo (vestibular e universidade) na verdade separe indivíduos com estes traços para o exercício da profissão. E como se sabe, obsessão tem a ver com controle. Os pacientes que apresentam-se fora do padrão estabelecido “normal”(paciente bonzinho que aceita tudo, não discute e só obedece), são os fatores que fogem ao controle do médico, que age com agressividade para exprimir sua frustração.
Um estudo recente, de Wear e Skillicorn, publicado no Journal of the association of American Medical Colleges observou um fator interessante na formação médica. Basicamente a pesquisa relata que estudantes que tiveram professores e modelos profissionais com características sádicas tendem a repetir esse comportamento na vida profissional e pessoal.
Concluindo, médicos que engajam constantemente em comportamentos rudes e sádicos não deveriam trabalhar em contato com novos profissionais, para prevenir uma “contaminação” da nova geração de médicos pelos antigos valores. Só com a reclamação por escrito dos diretamente afetados e com reprimendas aos médicos envolvidos pode-se tentar diminuir a epidemia de comportamentos sádicos nos hospitais do país e prevenir que a nova geração de médicos aprenda as más-práticas e o desrespeito ao próximo, tão comum nos Hospitais do SUS.